Uma igreja de arquitetura neogótica inglesa, com quase um século de história, corre o risco de desabar na zona rural de Gália, no interior de São Paulo. A Capela de São João, inaugurada em 1935, enfrenta abandono, vandalismo e deterioração estrutural, apesar de ter sido tombada como patrimônio histórico e cultural do município em 2020.
O templo é a única construção que permanece de pé do antigo complexo da Companhia Agrícola do Rio Tibiriçá, conhecido como Companhia Inglesa. O local chegou a abrigar cerca de 2 mil pessoas durante o auge da produção cafeeira, mas hoje a igreja depende de intervenções emergenciais para evitar o colapso de sua estrutura.
Estrutura comprometida e escoramento improvisado
O estado de conservação da capela se agravou ao longo dos anos, principalmente após o encerramento das atividades religiosas e a falta de manutenção contínua.
Portas e esquadrias desabaram, as paredes foram pichadas e partes do interior sofreram danos. O imóvel chegou a ser interditado devido ao risco de colapso do telhado.

Em 2024, foram realizadas intervenções emergenciais de escoramento na cobertura. A estrutura, que dependia de esteios improvisados de eucalipto, recebeu reforços para evitar que o teto desabasse.
Segundo João Paulo Piovezan, estudante de relações internacionais de 19 anos que atuou voluntariamente no processo de tombamento, a medida foi necessária para preservar a construção até que sejam viabilizados recursos para o restauro.
Apesar da intervenção, a igreja continua aguardando uma solução definitiva. O município busca financiamento e recursos para executar a restauração completa do patrimônio.
Capela marcou a história da colônia inglesa
A Companhia Agrícola do Rio Tibiriçá foi fundada em 1926 por investidores britânicos de Liverpool, que pretendiam desenvolver uma das maiores fazendas de café do país.
A capela foi inaugurada em 1935, com a primeira missa celebrada pelo então arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva.
Durante décadas, o templo foi um dos principais pontos de encontro da comunidade rural. A tradicional festa de São João, padroeiro da capela, reunia colonos e moradores da região.
A fazenda chegou a contar com moradias, escolas, praças esportivas, clube social e uma sala de cinema e teatro, que recebia espetáculos e exibia filmes.
Com o fim das atividades agrícolas e a desativação gradual da colônia, a comunidade foi deixando o local. A última missa com moradores foi celebrada em 1982. Anos depois, algumas celebrações esporádicas foram retomadas, mas suspensas definitivamente em 2010.
Tombamento ainda não garantiu a restauração
A capela foi tombada em 2020, após uma mobilização de moradores e pessoas interessadas na preservação da história de Gália. O município também declarou o imóvel de utilidade pública para desapropriação.
Mesmo com as medidas de proteção, a restauração ainda não foi viabilizada.
O abandono também abriu espaço para atos de vandalismo. De acordo com Piovezan, bancos antigos foram destruídos, o altar sofreu danos e as paredes foram pichadas.
Atualmente, o local continua atraindo ciclistas, motociclistas e fotógrafos interessados na arquitetura europeia e na história da antiga fazenda. A visitação, porém, exige atenção devido às condições da estrutura.
Último vestígio de um período histórico
Com o passar dos anos, casarões, armazéns, escolas e outras construções da Companhia Inglesa foram demolidos ou desapareceram em meio à vegetação.
A Capela de São João é a única edificação remanescente do antigo complexo e representa um importante registro da história da cafeicultura e da colonização rural na região.
Enquanto aguarda recursos para a restauração, o templo permanece exposto à ação do tempo. A preservação da igreja depende de medidas capazes de garantir a segurança da estrutura e impedir que um dos últimos vestígios desse período histórico desapareça.